Havia um velho senhor lá na rua onde eu morava
que, cordial, dizia: – Buenas! – sempre que eu ali passava.
O velho era conhecido por muitos na região
por uma lenda que cercava seu nome e sua situação.

Notei que ele sempre se vestia de um jeito muito singelo:
no inverno um casaco surrado, no verão um simples chinelo.
A sua casa era antiga, uma cabana de madeira
e na varanda ele vivia lendo livros numa cadeira.

Diziam pela cidade que ele era milionário.
Na capital durante anos foi um famoso empresário
que ganhou milhões em cima da industria da farmácia
“Brincou com a saúde do povo”, diziam de sua audácia.

Muitos viravam a cara ao passar em frente a sua casa
“Eu não olho pra esse velho nem que o terreno vire em brasa”
Vi muita gente praguejando e dizendo que ele merecia
a solidão que pairava no seu rancho noite e dia.

Mas sempre chamou a atenção uma coisa para mim
os adultos o julgavam, mas as crianças não eram assim
E sempre que a gente chutava uma bola no seu quintal
ele devolvia sorrindo, dizendo que não havia mal.

Nunca vi ele antipático ou gritando com vizinho
e já vi ele sendo ser ofendido e ficando bem quietinho.
Geralmente ele era desprezado, mas seguia resoluto
voltava pra dentro de casa e não saia do seu reduto.

Minha curiosidade era grande para entender a situação.
Por que um senhor tão simpático gerava tanta indignação?
Resolvi um certo dia, passando por aquele lado
conversar e conhecer o senhor que era ignorado.

– Buenas! – disse ele, como sempre sendo simpático
– Bom dia, seu João – respondi meio pragmático
e emendei na sequência: – Posso tomar um café com o senhor?
Seus olhos brilharam e ele respondeu: – Entre, por favor!

Entrei na sua casinha que parecia cair aos pedaços
e mesmo ali na varanda em vez da mão, me deu um abraço
Senti além de carência, um desalento profundo
como se aquele senhor simpático nas suas costas carregasse o mundo.

Ao me servir o café, perguntou da minha família.
Perguntou até de um primo que eu tinha lá em Brasília.
Achei aquilo engraçado, pois lá em casa sempre se dizia
– Ignorem aquele velho! Ele não vale uma mixaria…

Mas Seu João naquela tarde confirmou a minha impressão.
Foi simpático como sempre, se mostrou um ‘queridão’
Por isso cada vez mais me intrigava aquela situação.
Por que as pessoas o desprezavam? E por que ele parecia triste no coração?

Falamos de tudo um pouco: política, futebol,
falamos de culinária, literatura, até do sol.
Seu conhecimento era vasto, era um verdadeiro letrado!
E o contraste com a sua aparente pobreza me soava um pouco errado

Quando senti intimidade, resolvi ir ao ponto da questão
perguntei: – No fim das contas, o que acontece seu João?
Você é sempre tão simpático e vejo que esta gente lhe despreza.
Dizem que você é milionário, mas aparenta tanta pobreza…

Seu semblante ficou sério, achei que ele iria chorar.
No fim olhou no meu olho: – Jovem, vou lhe contar.
Vim de família nobre, fiz boa faculdade – moleza
Construí um novo império, aumentei minha riqueza

Mas me deslumbrei com tudo, sempre quis um pouco mais
Minha ganância não teve freios e meus filhos saíram iguais.
Na indústria farmacêutica obtive um controle total
portanto os remédios tinham um preço além do normal

Minha época era outra e fiz um acordo com o estado
Portanto não interessava se o que eu fazia era errado.
Cobrava preços abusivos de coisas que salvariam vidas
e, para aumentar minha riqueza, pagaram as pessoas adoecidas.

Perdi a conta de quantas famílias perderam pessoas assim:
vendendo tudo para pagar tratamentos que pareciam não ter fim.
E como eu tinha o monopólio, a coisa era sempre assim.
Até o final da vida dos doentes, estavam pagando pra mim.

Meus filhos foram criados vendo apenas a ganância do pai
e vivendo este tipo de coisa a sua compaixão se vai.
Hoje eles vivem longe, os dois, fazendo coisas iguais as que eu fiz
É duro, mas é real: se preocupam só com o próprio nariz.

E eu só abri os olhos depois de viver uma tragédia,
a vida me pregou uma grande peça e fez eu perder a rédea.
Minha esposa adoeceu e nem todo o dinheiro do mundo
foi suficiente para lhe salvar e do poço eu cheguei ao fundo

Quando a gente vê a morte, e descobre que um caixão
Não tem gavetas, não tem cofres, não cabe nem um cifrão
Nessa hora você entende que a única coisa que vale são as histórias construídas
É o que a gente vive, o que a gente sente e o que a gente faz por outras vidas

Hoje abri mão de dinheiro, coisas de luxo também
Foi um pouco tarde demais, mas aprendi a não ser refém
Aprendi que nesta vida, tudo que vai um dia vem
E aprendi no fim das contas o valor que as coisas têm.

 

Paulinho Rahs