Acordei com uma ressaca monstruosa – mas ontem eu nem bebi.
A vizinha do apartamento de cima sempre faz faxina nas sextas. E entre o “toc-toc” dos passos – por Deus, quem é que limpa a casa de tamanco? – e o barulho incessante do aspirador, por baixo um rádio chiado tocava aquela música que todo mundo já sabe de cor:

– Eu jáááááá te supereeeeeei..

Levantei com a cabeça ainda latejando e fui buscar uma aspirina no armarinho de remédios. Abri uma rede social, direito nem lembro qual, pois todas estão ficando tão parecidas nestes dias.
Sei que dei de cara com uma menina que eu nem seguia, fazendo uma coreografia ensaiada da mesma música aquela.

– Certeza eu supereeeeeeei…

Resolvi ligar pro trabalho e dizer que hoje não vou participar das reuniões. Até em home office a gente dá um jeito de dar bolo nos compromissos, acho que é cultural isso aí. Sei lá, minha cabeça dói. Tem também um nó na garganta, dificuldade pra respirar.
Resolvi sair pra pegar um ar. De máscara, é claro. Então digamos que foi pra pegar um sol, já que ar fica difícil.
Eu precisava somente sair de casa. Umas duas quadras pra baixo da onde eu moro, um rapaz sem camisa, de bermuda e chinelos lavava o seu Corsa rebaixado. Do lado uma caixinha bluetooth e o som eu já imaginava qual.

– Mas não mandamensagemoutraveeeezzzzzz senão recaireeeeeeeei.

Voltei pra casa, coração batendo rápido, uma certa ansiedade – como quem espera por algo e não sabe bem o que.

Me atirei no sofá sem ninguém pra conversar. Sexta-feira e não dá pra sair pro barzinho, ver os amigos, tentar algo na balada. Tinder? Ah, na boa. Cansei dessa parada.
Queria ter alguém comigo pra uma conversa mais profunda, assistir um filme, ficar abraçado.
Um medo assombroso da solidão me tomou de assalto.

Abri o Spotify no modo rádio e adivinha o que começou a tocar!? Quando eu vi, já tava com o perfil dela aberto no meu celular.
Por um segundo cruzaram na minha mente todos os sintomas que senti no dia: ressaca sem nem beber, nó na garganta, dificuldade pra respirar, coração acelerado, ansiedade, medo da solidão.
Até me pareceu engraçado. Por um instante me convenci que o @akapoeta pudesse ter utilizado todos esses sintomas num ressignificado de saudade. E eu me autodiagnostiquei como enfermo desse mal.

Meu problema é saudade. Às vezes acho que me curei, até alguém ligar um rádio.

Eu já te superei. Certeza, eu superei.


Mas não manda mensagem outra vez.

Paulinho Rahs