Sempre que eu vejo alguém que tem tudo pra ser feliz mas mesmo assim consegue jogar as oportunidades fora, sabe o que eu tenho vontade de fazer?
Eu tenho vontade de chegar nessa pessoa, olhar no fundo dos seus olhos e aí dar um abraço bem apertado nela e dizer:
– Eu também já fui assim!

É. E quando me dei por conta que eu era exatamente desse jeito, eu tinha vontade de me pegar pelo pescoço, me dar uns tapas na cara e falar:
– Cara, que m**** foi essa que tu andou fazendo com a tua vida?

Mas com o passar dos anos eu entendi que viver com culpa, com rancor de si mesmo, é a pior estratégia para colocar a casa em ordem.

Eu desconheço alguém que tenha feito da maneira que eu fiz, com tanta maestria, com tanta categoria, conseguir jogar na lata de lixo seus maiores motivos para ser feliz.

Só que naquela época eu não me dava por conta. Tudo que eu tinha parecia tão pouco. E cada vez que eu fui perdendo cada uma das coisas valiosas que foram minhas, só depois que eu as perdia conseguia enxergar o tamanho que elas tinham.
Quando eu as possuía, eu só queria mais. Nunca era bom o suficiente, nada era bom o bastante.
Eu queria mais e mais, queria diferente, logo me cansava.
Até que eu comecei a ir perdendo uma a uma: as coisas maravilhosas da minha vida.

Um belo dia acordei, me olhei no espelho e vi que não tinha mais nada.
Que havia conseguido a façanha de colocar tudo fora.

E aí eu me odiei.
Por dias, por semanas, por meses, por anos.
Eu me odiei.
Porque eu só me dei por conta das bobagens que eu estava fazendo depois que era muito tarde.

Os anos se passaram e o ódio se dissipou.
Talvez de tudo que eu fiz, o mais difícil tenha sido aprender a me perdoar.

Hoje me perdoei e comecei a reconstruir a minha história consciente de que nunca, nunca vou ter novamente as coisas que tive um dia. No pensamento a certeza cruel de ter que voltar a fazer tudo do zero de novo.

Mas a questão agora que eu te falo, voltando lá pro início, é exatamente isso: quando eu vejo as pessoas fazendo essas mesmas coisas que fiz, tenho vontade de ir lá, dar um abraço nelas e dizer:
– Você não sabe a gravidade do que está fazendo. Pois se você soubesse, você faria diferente. Você daria mais valor.

E sempre que eu tiver a oportunidade de cruzar com essas pessoas insistirei em falar a elas:
– Espero que você possa enxergar o valor que tem as coisas que parecem pequenas, mas são bênçãos na sua existência, antes que você comece a jogar elas pela janela sem ter volta ou chance de ir buscar sem ter despedaçado tudo.

No fim não existe dor pior que descobrir como eu descobri: quando já era tarde demais.

Paulinho Rahs