Te conheci em meados de outubro.
Você vestia uma blusa preta e parecia não se importar em qual estação do ano estávamos.

A primeira vez que eu te vi, reparei nos olhos e na cor do cabelo. O seu sorriso me paralisou por inteiro e, por alguns segundos, o mundo pareceu congelar.

Você me perguntou meu signo e eu respondi que era de Áries, mas que não entendia nada sobre o assunto. Rimos disso. E no decorrer dos anos, fomos como o primeiro dia.
Me pergunto até hoje: quando foi que nossos sorrisos se tornaram solidão?

Cê sabe, eu sou de Leão. Mas no mundo que eu criei, você seria sempre o centro de qualquer atenção. Mas a rotina é algo que esmaga todas coisas mais coloridas.
Com o passar do tempo, nos vi em preto e branco. Como será que deixamos tudo ficar assim? Sozinho, é o que me pergunto.

Penso em todas as coisas que, em questão de dias, juntamos. As escovas. Os lados da cama, do corpo, do coração. a insistência em nossa teimosia. A nossa euforia.
Hoje olho para as paredes ocas dessa casa e não sei em que momento você se tornou balão e eu um cacto. Quando foi que deixamos de ser flor e passamos a ser só espinho. Em qual caminho da vida escolhemos direções opostas e nos tornamos essa frieza que até mesmo seu moletom, que era o meu favorito, não foi capaz de aquecer.
Sentada no chão do que fomos, te sinto ainda em cada canto de mim.

Eu ainda sinto o seu cheiro, às vezes até a sua voz parece que eu ouvi. Quando acordo pela manhã, a cozinha vazia e sem café pronto me lembra que isso ficou no passado. As garrafas de bebida já não tem amenizado. Contatinhos e outros corpos não te tiram do meu sistema.
Tenho a plena sensação que nunca mais vou te esquecer. Mas te esquecer nem é meu objetivo. O problema é que eu não consigo parar de te amar.

Essa sensação do que poderíamos ter sido me desaba. o “e se” que insiste em me fazer duvidar. O gosto que você deixou em cada canto dessa casa e em mim. As lembranças do que fomos e do que deixamos de ser pelo conformismo do dia a dia.
Sei que tentamos. E tentar, acredite, foi o ato mais corajoso do nosso amor.
Só que agora é preciso ir.

É difícil aceitar e mesmo entender. Não foi por falta de amor. Acho até que nunca vai ser. Mas nos filmes de romance que eu vi, esqueceram de me contar que na vida real, só amor não basta. Então, se é preciso seguir em frente, que a gente tenha coragem e siga. Eu seguirei o meu caminho. E seguirei também, mesmo que de longe, te amando.

Acontecemos. Nunca vou me esquecer disso. Nunca vou esquecer do toque das suas mãos nas minhas. Nem da eletricidade que percorria quando seu corpo caminhava pelo meu. Nunca vou me esquecer da sensação que você me deu, pela primeira vez na vida, de me sentir amada e acolhida. Amor é sobre não ir, eu sei. Mas amor é sobre tentar e também é sobre deixar ir. Porque nós tentamos, como eu disse. Espero que você complete os caminhos que não percorremos e os lugares que não conhecemos junto a um amor que te faça feliz não como nós fomos, mas como vocês serão. Você sempre será uma parte de mim e sei que sempre serei uma parte sua, independente de não termos dado certo como queríamos.

Lídia Taquary & Paulinho Rahs