Prazer, sou amigo da solidão. Em meio a tanta gente que morre de medo dessa senhora, em meio a tanta coisa ruim atribuída a ela, que teve seu nome associado a depressão, ansiedade, agonia e saudade, me encontro aqui acompanhado apenas dela. Fui na contramão da aversão que todos sentem quando ela aparece e passei a entendê-la. Você raramente vai encontrar-se com ela em meio a multidões, embora isso seja possível. Ela costuma estar me esperando bem no meio da noite, quando todos já estão dormindo e ainda é muito cedo para acordar. Nas janelas dos prédios poucas luzes acesas, as que estão é por que foram esquecidas. Falando em esquecimento, foi quando eu me sentia jogado e esquecido aqui que ela apareceu.

No começo tive medo, quis fugir, quis buscar alguma companhia diferente; uma bebida que fosse, um livro, o meu violão. Fui me acostumando com sua presença, assim como me acostumei a esquecer tudo que vai. Não que eu seja de me adaptar, mas tem horas que a gente não tem escolha. Ultimamente me escondo para esperar a sua visita. Não quero me isolar do mundo, na bem da verdade tenho cuidado bastante para não me viciar nisso. Olha que não duvido que seja possível. Já pensou na manchete? “Jovem viciado em solidão larga tudo”. Prometo que vou com cuidado; esta, como qualquer outra coisa que possa viciar, é apenas uma questão de dosagem. É bom, faz a gente esquecer do resto do mundo, faz a gente se sentir melhor. Contudo, eu tenho consciência: desenvolver dependência é um buraco sem fim. Eu não vou fazer nenhuma burrada com a minha vida, valorizo ela por demais. Entenda, lhe peço: uso a solidão para ocasiões especiais. Isso parece desculpa, eu sei. Acontece que meus encontros com ela tem apenas melhorado quem eu sou.

É com solidão que meu coração acelera, me fazendo sentir uma euforia única. Isso me ajuda a ver as coisas mais coloridas que com o tempo foram perdendo o brilho.

É com solidão que consigo me encontrar com quem sou de verdade. Isso me ajuda a pensar com clareza em coisas que por vezes ficam nubladas pelas circunstâncias do dia a dia.

Vieram falar comigo: – Toma cuidado pra não deixar de ser você… Você anda sumido, anda diferente.

Deixe-me explicar. Eu lido com sentimentos dos mais variados. Não gosto desse pensamento seletivo de que sou diferente dos outros, só que, para ser o mais sincero quanto me é possível, não vejo as pessoas por aí sentindo tanto quanto eu. As coisas vêm até mim e me rasgam o peito. Absorvo as energias de quem está ao redor, sonho alto demais e isso me custa caro, quero ser a melhor versão mim e nem sei se sou capaz de chegar a ser a pessoa que almejo e vejo dentro de mim. Por essas e outras tento colocar para fora nas minhas palavras tudo que sinto. Nem sempre é possível. Aí entra a ajuda extra da solidão. Ela atua como um médico cirurgião com alguma dessas ferramentas hospitalares que eu não vou saber dizer o nome. Sei desenhar pra ti que ela vai lá dentro, no meu mais íntimo e profundo sentimento e vem puxando tudo pra fora. Tudo vai saindo, me ardendo a garganta e tremendo os dedos. Na ponta deles um zilhão de emoções querem sair ao mesmo tempo e eu fico aqui, tipo um médium espírita, fazendo a comunicação entre o que a solidão extraiu de dentro de mim e a caixa de texto em branco no computador.

Uns defendem, outros a condenam. Muita gente ganha dinheiro por aí através dela nesses consultórios que as pessoas se obrigam a procurar. Dependência de solidão até parece piada nos primeiros encontros que se tem e ela te assusta, muito em função de tudo que falam. É só até começar a ir gostando. Sinto que aos poucos ela está se mostrando uma amiga falsa, apenas interessada em me consumir. Vou aproveitando cada segundo até que fique insustentável uma amizade perigosa dessas. Amor e ódio, euforia e paranóia. Solidão das madrugadas, solidão que surge nos momentos mais inesperados e não planejados.

Prazer, sou amigo da solidão.

 

Paulinho Rahs

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