Naquela tarde eu me sentia completamente vazio. Sozinho no mundo, omisso a tudo. Um vampiro em frente ao espelho. Por que será? Nada parecia valer a pena, o céu estava nublado e eu arrependido. Uma necessidade monstruosa de pedir desculpas a todos que feri com minha falta de sensibilidade. Parecia que a tristeza passou o tempo parada esperando por esse dia. Desde então nada foi mais do mesmo jeito e agora, até as paredes do meu quarto riem da minha cara. Ainda ouço barulho de trovões numa ironia tão grande, que quando a chuva chegar já nem terei lágrimas para molhar meu rosto.

Na verdade a gente vive numa grande farsa, mentindo pra si mesmo e vivendo como se a vida nunca fosse acabar. Mas viver um dia é se aproximar da morte. Olha que ironia! “Viva a vida” dizem aqueles anúncios que eu vejo por aí. Mas quanto mais eu vivo, mas eu estou próximo da morte. Cada alegria, cada decepção, cada porre, cada lágrima, cada sorriso é um momento. E momentos são passos à frente no tempo. Sinto informar, mas nosso tempo está acabando.

Quando alguém perde a vida, quem está próximo perde o chão. Mas e agora que você tirou a minha vida e meu chão e eu nem morri direito? Queria um caixão, flores, gente chorando por mim. Na bem da verdade queria estar no sono doce e profundo da verdadeira morte. Porém eu só morri por dentro. Dentro da alma.

O que sobrou de mim quando você saiu por aquela porta? Você parece comigo. No fundo não tem como ninguém me aprisionar de forma alguma. Mas pretendi ser sua liberdade de alguma forma. É claro que não haveria luz suficiente para iluminar seu caminho. Mas minar o meu? Agora cada passo meu é uma explosão diferente. E eu me despedaçando.

Eu não quero insistir. Mentir? Você já sabe. Não foi minha intenção. Mas nunca é, não é mesmo? Ao menos nos livros que eu leio e nos filmes que eu assisto, funciona assim: a gente mente, mas no fim diz que não foi intenção. Vocês perdoam e no aí fica tudo bem. Só que sim, me lembro o quanto você era fã de histórias medievais. Eu encarando a vida com nobreza, honra… O príncipe conquista a princesa e era isso. Só que eu falhei. O público precisa de uma tragédia. O povo é assim, louco por um drama.

Te deixei atuar.

Me roteirizar.

Me dirigir.

E aí de repente você mata o personagem principal. E eu faço o que com o livro da minha vida?

Ponto final?

 

Paulinho Rahs

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