Leia ao som de Eu Nunca Disse Adeus

A nossa história acabou.
Vamos botar um ponto final.
Decidi isso hoje, enquanto te assistia dormir,
com a leveza de uma criança.
Não tem mais jeito: essa vai ser a última dança.

Sei que isso já passou pela sua cabeça
até mesmo mais vezes do que passou pela minha.
Confesso que parte do que me segurou
sempre foi o egoísmo: não suportar te imaginar sozinha.

Acredito que da sua parte também:
pior do que terminar algo
é imaginar o que na sequência vem.

E assim a gente vai suportando.
Releva um erro, ignora outro.
Assim a gente vai se matando.
Por que matar tempo é caminho sem volta.
Quando vê passou mais um ano.
E quando a gente olha pra trás
juventude não volta e não há cura pra esse dano.

Por isso minha decisão
foi ter uma última dança.
Antes de seguir um novo caminho,
vou criar uma última série de lembranças.

Só mais um de cada coisa,
como se a vida fosse terminar
e a gente pudesse experimentar
tudo só mais uma vez.

Como Berlim em La Casa De Papel,
como Walther White em Breaking Bad.
Como quem sabe que o fim é iminente,
como os últimos momentos de Tracy e Ted.

Um último jantar naquele restaurante.
Uma última pizza na barraquinha da esquina.
Uma última foto pra botar na estante,
e um último final de semana normal, de rotina.

Vamos viver mais essa primavera,
o próximo verão, na praia com os amigos.
Aquele bar do chopp ruim com a galera,
vou ser o melhor que eu consigo.

Mandar as flores que não mandei,
fazer as surpresas que não fiz.
Te prometo um ano perfeito,
do jeito que você sempre quis.

“E por que não fez antes?”
alguém pode estar se perguntando.
É engraçado, mas a maioria das pessoas é assim:
só lembra de valorizar quando vê que tá acabando.

Mas eu posso dizer
que fui o melhor que pude.
O problema é que nosso amor foi esfriando
e eu preciso tomar uma atitude.

Não vejo mais desejo,
não vejo mais vontade.
Nenhum de nós é intenso.
Nem dias longe nos dá saudade.

Virou algo normal, do tipo “ah, é o que tem pra hoje.”
Virou simplesmente monotonia.
Lembra quando éramos mais jovens
e vivíamos em sintonia?

Vamos então: última viagem juntos,
últimos aniversários: o meu, o seu, o nosso.
Vamos viver mais um Natal e outro carnaval.
E eu vou fazer tudo que posso.

Viveremos uma última noite de casal,
depois de um jantar à luz de velas.
Vamos acordar e correr na beira do mar,
sujar a cozinha inteira por causa de duas panelas.

Cozinharemos juntos, faremos caminhadas,
vamos cantar Gabriel o Pensador à todo volume pelas estradas.
Última noite de Netflix. Última pipoca no cinema.
Vai ser um ano que vai valer por todos,
vamos fazer tudo ser lindo feito poema.

Teremos mais um almoço com os seus pais,
teremos mais um com os meus também.
Vamos viver o outono
e o inverno que vem também.

E aí, vai chegar a hora.
Me dói só de pensar no momento.
Mas eu sei que é inevitável
é o que precisamos pra não virarmos
um casal frio e sem sentimento.

Depois de viver tudo mais uma vez,
é hora da mudança.
Vamos ter que saltar do avião,
desafivelar o cinto de segurança.
Espero que depois de tudo,
jamais pensemos em vingança.
Foi um relacionamento que deu certo:
acabou sob mútua confiança.
Vou te dar um último beijo,
um último abraço
e cada um tira a sua aliança.
E aí vamos cada um começar uma nova vida:
essa foi a nossa última dança.


Paulinho Rahs