Acordei pela manhã e me levantei para mais um dia. Novas vinte e quatro horas me foram concedidas para buscar todos os meus sonhos. Levantei, com as minhas duas pernas em perfeito funcionamento; me dirigi até a cozinha da casa da minha namorada e comecei a preparar um café da manhã, com minhas duas mãos em totais condições. Equilibrei uma xícara com café, outra com iogurte, umas bolachas e uma torrada nos meus braços, respondendo a qualquer estímulo cerebral que eu lhes enviava. Sentei-me na cadeira e apoiei meu celular na mesa. 
Comecei a correr minha timeline e ver as notícias da quinta-feira que estava se iniciando. O próximo jogo do meu time vem aí, já me planejei de ir e levar alguns bons amigos. Olhei no relógio e me atentei que tinha uma reunião marcada no estúdio da rádio em poucos minutos. Lembrei com um sorriso que anteontem estive com a minha banda e um ídolo nosso em um evento onde pegamos vários quilômetros de estrada e chegamos a nossos destinos sãos e salvos, mais até: felizes e debochando uns dos outros.

Voltei meus olhos ao celular e abri o Whatsapp: meus pais haviam enviado fotos antigas nossas no grupo da família e se divertiam com aquilo. A galera do futebol já perguntava se estava tudo certo para o próximo jogo e o pessoal da academia se eu compareceria no treino. Me adicionaram num grupo de amigos que pretendem tomar uma geladinha quando todos estiverem disponíveis. Que saudade desses amigos! Mas que bom que vamos nos encontrar!
Voltei a olhar a timeline e me deparei com uma foto que me fez corar de vergonha, tremer de arrependimento e derreter de culpa. Jackson Follmann, sobrevivente que teve a perna amputada no acidente aéreo da Chapecoense, postou uma foto bem humorada dizendo que estava com cãibra após o treino e foi resgatado por seu amigo, também sobrevivente, Alan Ruschel. O detalhe é que a cãibra era na perna amputada. Era na perna mecânica que foi colocada no seu corpo. Era uma piada com o acidente que acabou com a sua carreira de jogador de futebol pra sempre. Ele caiu de avião, perdeu a perna e nunca mais vai poder fazer o que fazia para ganhar a vida. E mesmo assim, desde a primeira aparição pública, Follmann não se concentrou nesse detalhe sórdido, o copo meio vazio de sua história. Ao contrário: ele olhou para o copo meio cheio. Ele sobreviveu em um avião que caiu. E hoje ele consegue rir disso!
Nessa hora deixei meu celular cair na mesa e fiquei minutos parado, analisando toda a minha existência.
Pernas, braços, mãos e cérebro perfeitos. Namorada, fartura, acesso a tecnologia, carro, trabalho, banda e amigos. Família, galera do futebol, galera da academia e galera da cervejada. Sonhos brilhantes e plenas condições de alcançar todos eles.
E mesmo assim, têm dias que eu reclamo da minha vida.
Enquanto isso o Follmann ri de sua perna amputada, pois, é tão óbvio, minha gente! Ele tem todos os motivos do mundo para sorrir!
Agora eu enxergo.
Enquanto isso eu estou com cãibra na consciência.
Nós todos temos todos os motivos do mundo para sorrir.
Paulinho Rahs

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