Já tive amizades de todos os tipos. Daquelas que vieram intensas e se foram muito rapidamente, daquelas que pareciam que não iam dar em lugar nenhum e ficaram para sempre, algumas que resistiram ao tempo e ao distanciamento e outras que se mostraram mais frágeis que copo de um e noventa e nove.

Com todas as formas de amigos troquei algum tipo de confidência, falei até mais do que deveria, expus minhas mais internas consternações e expectativas. Acabei encontrando sempre algum tipo de decepção. Sabe como é… Dizem por aí que segredo entre três, só matando dois. E olha que eu tenho muitos segredos para simplesmente cair matando. Cada pequena ferida aberta por revelações de minhas personas ocultas foi me trazendo apreço pelo individualismo. Hoje já não ouço essa palavra armado até os dentes e encolhendo os ouvidos como se fosse algo cruel. Demora pra gente entender que nem tudo é como pintam por aí. Individualismo. Olha aí, lê de novo. Não é tão ruim assim…

In-di-vi-du-a-lis-mo. Substantivo masculino. Tendência a não pensar senão em si.

Tá, parece ruim. Eu sei. Soa egoísta, frio, egocêntrico. Mas calma, lê de novo, eu também pensava assim.

Individualismo. Tendência a libertar-se de toda solidariedade com seu grupo social, a desenvolver excessivamente o valor e os direitos do indivíduo.

Ok, isso é o que diz o dicionário. Tá, dane-se ele também. Quer dizer, isso soou meio individualista mesmo. Vamos só abrir então um pouquinho de interpretação aí. Libertar-se de solidariedade, desenvolver valor e direitos do indivíduo… E se eu te falar que às vezes é bom mesmo?

É bom se colocar em primeiro lugar. Todo mundo já faz isso de qualquer jeito. A diferença é que despir-se de hipocrisia é uma das coisas mais lindas e solidárias que se pode fazer. É muito coletivo, pra ser sincero. Cultivar um pouco de individualismo sem medo de ser uma ilha arrogante no meio de um mar de gente faz um bem danado, vou te falar. Até porque tem gente que tem tantos amigos, pessoas queridas ao seu redor, que é benquisto e agradável que acaba esquecendo uma coisa importantíssima da vida: o melhor amigo.

Todo mundo precisa de um. Que te conheça cem por cento, sem uma vírgula fora. Que saiba cada minúcia de seus sonhos e pensamentos. Que entenda até seus preconceitos e burrices, que passe horas te acompanhando e te ajudando a evoluir. Mais ainda: que te ame do fundo do coração, veja a tua beleza e tudo que o mundo ainda não viu de você.

O detalhe, meu velho, é que antes de procurar isso em alguém, nós todos deveríamos encontrar quando nos olhamos no espelho.

Que a solidão te seja cada vez mais prazerosa. Que você goste da sua própria companhia.

Que te aconteça como me aconteceu, quando olhei no espelho e vi meu melhor amigo.

 

Paulinho Rahs

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