Primeiro foi a angústia. Perdido na madrugada sentindo-me só, vendo as paredes rirem da minha cara, fechando os olhos pra tentar me esconder, no cruel dilema de não saber se é pior dormir ou levantar. O mergulho, a queda. De volta ao mundo astral, alguma coisa está errada. Como é possível ainda esse encontro?
– Me dá a mão, vamos conversar. – ela é deslumbrante e não cansa de exercer seu poder sobre mim.
– Quanto tempo faz? – eu disse já sabendo da resposta. É geralmente assim: na hora H sempre faltam as palavras. No momento de falar nunca vem aquela ideia que seria perfeita, que teria o ‘timing’ pra sacudir as estruturas.
– Tu sabe muito bem. – Se sei. Contei o número exato de semanas e dias, com um pouco de cálculo vou te dar até as horas. Jamais me esquecerei. 23h16 da noite de inverno quando eu desliguei o telefone e era a última chamada. Depois daquilo, nunca mais. Mas eu estava ali segurando suas mãos e sorrindo ao seu lado.
– Senta, já está quase começando – e eu virei para uma tela gigante. Ali as imagens pareciam saltar de tão coloridas. Não tive dúvidas: era real. Era minha vida de volta ao passado e ela estava me mostrando o nosso filme. Foram centenas de dias juntos e tudo estava condensado naquele vídeo que ia além dos 3, 4, 5 ou sei lá em que D a tecnologia anda nos dias de hoje. Tudo que a tela passava eu sentia dentro de mim; as gargalhadas, os bons momentos, as coisas decaindo, o choro, o final. Nós tão jovens querendo fazer dar certo. Era um filme de amor e eu assistindo de mãos dadas com ela, nós sorríamos querendo a volta. Abri a boca para dizer algo, entretanto ela pediu para eu silenciar.
– Apenas me ouve – e começou a dizer tudo que eu sempre sonhei que ela dissesse. Que viria na manhã seguinte sacudir as estruturas do meu mundo, que tinha livros e filmes pra me recomendar que ninguém mais poderia, que ela precisava fazer a diferença na minha vida. Ela estava perfeita; a beleza pela qual me apaixonei com as palavras e pensamentos que sempre sonhei. Beijei seus lábios e comecei a chorar; ainda existia um jeito de consertar tudo!
– É hora… – ela levantou e saiu correndo. De início era devagar e fui confiante que chegaria ao seu lado. Acontece que quanto mais eu corria, mais ela se distanciava. Eu estava fazendo o melhor que podia para alcançá-la, contudo nunca chegava ao seu lado. Fomos nos aproximando de um penhasco e ela não parava de correr. Desesperado comecei a gritar:
– Não faz isso, por favor! Agora que eu tinha te encontrado assim… – apertei o passo, não poderia perdê-la de novo.
– Não adianta mais correr – ela virou-se pra dizer e, de costas, se jogou do precipício. Eu não pensei duas vezes: mergulhei atrás.
Cheguei a abraçá-la no ar e nos espatifamos no chão. A dor, o sangue, os ossos se quebrando. Acordei gritando, suor escorrendo. Ainda era noite e percebi que tudo não passou de um sonho ruim.
Estou quebrado pra ela, pra sempre. Algumas coisas nunca terão conserto.

 

 
Paulinho Rahs

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