Este texto já nasceu com uma retumbante tristeza impregnada em suas veias. Ele é mais do que um amontado de palavras em um caderno velho. Ele é um manual, um epitáfio, um amigo – ainda que mórbido – suave na sinceridade de falar o que é necessário ouvir sem nenhum mascaramento; é um tapa nas costas acompanhado de um subentendido “Eu te avisei” e ao mesmo tempo o abraço que sucede toda a destruição. Isto que os amigos estão lendo no momento é o canto que encerra o meu esquecimento, são as palavras de alguém que profetiza um arrependimento iminente. 
Eu sei que vou me arrepender e sei que o preço a ser pago vai ser alto. Vejam só se isso é vida: encontro-me parado num caminho que se divide em dois e preciso escolher um. Independente do que eu escolher, eu vou me arrepender. É justo? Não. É insano. É tudo culpa do meu coração viajante. Podia ser simples, mas o gênio aqui complicou. Estou aqui morrendo um pouquinho a cada frase que sintetiza o que está por vir. Sem mais delongas, vou direto ao assunto. O que vem a seguir é uma direta e sádica mensagem para o dia em que eu me arrepender:

Sei como é duro, meu velho. Hoje ela não cabe mais em você e você não tem espaço na vida dela. Bem que houve aviso e prenúncio. Te entendo, éramos jovens. Eu e você. Eu que escrevi isso no passado e você que lê aos prantos aí no futuro. A lambança está feita e ‘there is no way back’. Tô sabendo que tu voltou a fumar só por causa dos nervos. Tô sabendo que esse uísque no copo aí do lado já tá aguado porque o gelo derreteu enquanto tu procurava isso aqui pra ler. Essa é a primeira vez que tu lê, como quem envia uma carta pra si mesmo e só deixa pra abrir num dia em que explode uma tragédia. É cruel, é doído. Desde noite passada tu não dorme e eu também sei disso. Ver ela apaixonada de verdade por alguém foi o pior golpe que esse coração já recebeu. Enxuga essa lágrima que ficou salgando o teu lábio e te lembra de duas coisas que vou te falar agora.

Primeiro que o tempo não volta. Nunca voltou pra ninguém e esse teu reizinho na barriga não é suficiente pra contrariar o universo. Agora é tarde demais. Se tu realmente se arrependeu é porque chegou a temida hora de encarar essa realidade. Ela sempre te amou mais que tudo, mais que todos, mais que ela. Ela encontrou alguém mais sagaz, mais sedutor, mais charmoso e adorável que tu. – Mas será que ele é mesmo? – sim, foi esse teu pensamento. Te conheço cara. A resposta é simples: ele se tornou tudo isso no momento em que valorizou ela mais do que tu foi capaz de fazer. Ponto, simples, frio, cruel. Ponto.

A segunda coisa é algo que foi aprendido durante nosso caminho e é muito bem sabido: autopiedade é um veneno, um sinal de fracasso. Sentir pena de si mesmo é o caminho mais fácil: nos livra da culpa, joga o fardo sobre outros ombros e gera um conforto momentâneo. Sentir pena de si mesmo é se declarar fraco e não fazer nada pra mudar isso. É sentir-se bem sendo apenas um resto do que já se foi.

O arrependimento é do tempo que não volta e a autopiedade é dos erros cometidos por imaturidade. Quando esse dia chegar, vai ser tudo nublado e todas essas cores que tu vê no mundo vão se perder.

É cara, eu te conheço…

Ainda bem que tu não consegue esperar por nada nessa vida! Que coisa linda ver que temos essa intensidade aqui dentro.

Aproveita que tu voltou pra ler esse desabafo na mesma noite em que ele foi escrito e corre pra escolha que faz teu coração pulsar mais forte.

Vai que ainda existe tempo e falta muito pra se arrepender.

Paulinho Rahs

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