Celular vibra na mesa,
outra notificação.
Leio, respondo,
checo outra rede social.
Perco meu tempo
e inspiração.


Me vicio em outra coisa,
cada dia um vício diferente.
Às vezes coisas bobas,
Às vezes coisas pesadas.
Ambas me impedem de seguir em frente.


Agora defino um objetivo
e digo que dessa vez vai.
Quando vi, me perdi outra vez.
A minha motivação me trai.

Quero sair e ter muitos amigos.
Ao mesmo tempo
cuidar do corpo e emagrecer.
Quero dormir cedo e ler mais.
Mas também quero beber até amanhecer.
Eu quero ser atleta.
E ao mesmo tempo quero ser boêmio.
Eu quero usar meu tempo livre
pra aprender alguma coisa nova.
Só que também quero olhar todos os jogos do Grêmio.
E entre o que eu quero pra vida,
que não me dá tanto prazer agora,
e o que eu quero pra sentir na hora
fico perdido entre um e outro.
E não faço nada direito.

No fim, sou um focado meia boca.
Um bon-vivant de meio expediente.
Nem muito de um, nem de outro.
Mas o equilíbrio não deveria ser atraente?
Não sei, parece que não.
Meu abdômen que nunca trinca
e minha carreira que nunca vinga
parecem discordar dessa afirmação.

Parece que preciso escolher.
Direita ou esquerda.
Azul ou vermelho.
Correria ou vagabundo.
E aí você me pergunta:
o que é que eu quero do mundo?
Qualquer meio termo
parece pouco pra mim.
Ter muitas emoções extremas,
eu sempre fui assim.

Mas parece que extremismo
anda meio fora de moda.
E eu passo mais um ano
tentando inventar a roda.
Querendo tirar da cartola um coelho
que me transforme em alguém importante.
Querendo tirar da manga uma carta
que me leve a ser brilhante.
Brilhante feito uma estrela.
A estrela que eu sempre quis ser.
Mas eu? Eu ainda sou apenas um sonhador.
Sonho e espero algo acontecer.

Acontece que nada acontece.
Ao menos muito pouco tem acontecido.
E eu na crise da meia idade
pensando no tempo perdido.
É que a minha crise chegou na metade da metade.
Imagina quando eu entrar no clube dos “enta”…
Se com vinte e tantos a culpa me aperta,
como vai ser lá nos quarenta?

Imagina aí você, eu cansei de imaginar.
Eu quero agora viver
como se a vida não fosse acabar.
Digo isso e tomo coragem.
– Bora viver na plenitude!
Mas aí caio na real:
viver no vício ou pela virtude?

Realmente não tem jeito,
essa pergunta é a que me assombra.
Viver pra ser feliz agora
ou usar o agora pra construir algo
pra ali na frente viver sem uma sombra?


E o tempo que não volta? É. Vou aproveitar.
E as fotos em que eu não pareço bem? Tá bom, vou me cuidar.
E as festas que eu tô deixando de ir? Ok, vou me esbaldar.
E os livros que eu ainda preciso escrever? Certo, vou me guardar.
Os chopps, os amigos, as histórias pra contar? Hmmm, vou me atirar.
As viagens, o dinheiro na poupança,
você não tava pensando em ter uma criança? Então, vou me segurar.

Quer saber? Eu cansei desse jogo de palavras cruzadas,
de sentimentos e estradas, de ter tanta opção.

“Aproveite a vida, mas não se perca.”
“Não deixe pra viver amanhã o que pode viver hoje.”
“Mas viu, não deixe de pensar no amanhã.”
“Gaste, mas não tanto.”
“Guarde, mas não seja santo.”
Ora, e a medida certa disso tudo é quanto?

Entre a cruz e a espada
vou vivendo a juventude.
Afinal qual é a minha estrada?
É a do vício ou da virtude?

Paulinho Rahs