E se o amanhã não existisse?
Essa pergunta surgiu na minha mente
e aí então, de repente,
eu comecei a pensar
sobre tudo que iria mudar
caso não houvesse um amanhã.

Experimente.
Tente você: se hoje fosse o último dia
como será que você iria
se portar ao viver?
Será que você mudaria
a sua forma de pensar e dizer?

Se o amanhã não existisse
por certo iríamos sentar à mesa
e desfrutar, de verdade, da última refeição.
Os abraços seriam mais longos,
mais firmes os apertos de mão.

Haveria, claro, mais perdão.
Pois o rancor já não faria sentido.
Teríamos mais compreensão,
veríamos mais colorido.

Se o amanhã não existisse
só importaria o sentimento
de estar presente no momento
de estar, de fato, no agora.

Já não importaria a hora de ir embora,
ficaríamos até quando a gente bem entendesse.
Se todo o compromisso e a responsabilidade desaparecessem
só íamos dar bola
pra o que nos faz feliz.
Sem relógio pra comandar,
sem agenda pra guiar,
a vontade iria ser a governante.

– Amigo, fica mais um pouco.
Bebe outra, conta uma história,
vamos abrir uma espumante.
Está cedo pra ir dormir,
não precisa ir embora.
Vamos fazer da vida uma festa
enquanto a champanhe estoura.

Se o amanhã não existisse
já não importariam as conquistas de carreira,
o dinheiro e os objetivos,
os ideais e as bandeiras.
Só importaria o hoje.
Ficar perto de quem se gosta
e pra quem está longe
quem sabe um longo telefonema
encurtaria a distância
e nessa circunstância
valorizaríamos até uma ligação.

Se o amanhã não existisse
a gente seria, então,
mais verdadeiro com quem somos na essência.
Afinal, a aparência,
os bens, as vitórias,
tudo seria substituído
e já não valeria mais tanto.
O poder seria ter tempo,
o dinheiro seria medido em: “quanto”.
Mas não quanto você tem
na sua conta do banco.
E sim quanto tempo te resta
pra dar um sorriso franco.

Se o amanhã não existisse
tudo seria mais real.
Pois viveríamos sem a ilusão
de que o futuro vai ser mais legal.
Seríamos obrigados a viver
da melhor forma possível
com o que se tivesse hoje.

Aí eu te pergunto:
com os amigos que você tem,
com a casa em que você mora,
com a quantia de dinheiro que você possui,
com o que você enxerga quando olha
da sua janela pra fora.
Com seja lá o que tenha na sua geladeira,
com o carro que existe na sua garagem,
com a cidade onde você vive,
com as pessoas que você troca mensagem…

Dá pra ser feliz com isso?
Você consegue encontrar
em tudo que define a sua vida hoje
motivos para agradecer?
Antes de responder,
deixa eu te lembrar:
se o amanhã não existisse
a sua resposta seria diferente?

Afinal, estou perguntando
se você consegue ser feliz com o que tem
mas sem uma perspectiva de mudar as coisas ali na frente.

Sabe, eu acho que o que faz
com que a gente viva num mundo tão infeliz
é por que existe a comparação.
Do hoje com o futuro,
do hoje com o passado,
com quem fomos ou poderíamos ser,
com a vida de quem tá do lado.

Mas se o amanhã não existisse
a gente ia ignorar tudo isso
e ter pressa só em uma única coisa:
ser feliz no tempo que resta.
E a nossa vida seria
realmente uma grande festa.

Por isso eu digo:
é preciso viver como se
não houvesse amanhã.
Por que se você parar pra pensar,
como disse o poeta
na verdade não há.

Paulinho Rahs