Era uma noite amena de Setembro. Lembro como se fosse hoje.
Já se vão quase cinco anos daquilo.

Cheguei em casa de uma caminhada com a Carol, tomei banho e nos sentamos todos na sala para assistir um Grêmio x Atlético (ainda sem h) do Paraná.
O Grêmio em vantagem, jogo na Arena, volta de mata-mata – mas nada disso importava muito até ali.
Importava que era a volta de Renato Portaluppi, três anos após a saída, ao nosso time.

Eu me lembro como se fosse hoje. Lembro de no sofá da sala virar pro meu pai e dizer:

– Pai, tu podia usar a tua influência e conseguir uma foto pra mim e o Marcelo com o homem. Nem que a gente desça a Porto uma tarde só pra ver um treino. Nosso sonho era ter uma foto com ele!

Meu pai, daquele jeito de sempre, disse que ia ver o que ia fazer. Como quem gosta, mas não faz do futebol o ar que respira 24 horas por dia – diferente de mim e do cunhado dele.

Naquela mesma noite, o Grêmio viveu um dos jogos mais icônicos da história recente do clube. Eu costumo dizer que foi o jogo onde o “portal” se abriu. O jogo onde o Grêmio deixou de ser um time que não ganhava nada há 15 anos e voltou a ser o velho Imortal Tricolor.

Passamos pelo Atlético (repito, ainda nem tinha H) nos pênaltis após emoções tremendas.
Renato havia voltado. Tudo estava se encaixando.

As semanas foram passando. O incaível Inter ia caindo pra Série B. Nós, íamos jogando um futebol incrível e avançando na Copa do Brasil. Grohe, Geromel e Kannemann, Maicon, Douglas, Luan… Que saudade!

Quando chegamos na final, liguei pro tatuador e disse:

– Me reserva a data de 1º de Dezembro, de manhã já. Vou tatuar no braço as cores do Grêmio e um 30/11/2016! O primeiro título grande que vou ver do meu time!!!

Não aconteceu. Dois dias antes o avião da Chapecoense, finalista da Sul Americana, caiu na Colômbia.
Uma tragédia que até hoje nos comove. O Brasil parou, o mundo se solidarizou e o jogo do Grêmio com o Atlético (esse sim, sem H até hoje) de Minas Gerais foi adiado. Quem poderia dizer que esse triste episódio desencadearia a série de eventos mais incrível das nossas vidas?

Me lembro como se fosse hoje: meu pai me liga.

– Tá com o Marcelo?
– Sim, tô – geralmente, estamos juntos.
– Vem pra casa, preciso falar com vocês.

A gente até gelou. Que cagada será que fizemos agora pro Mixa nos convocar?

Sentamos na mesa da sala de jantar. Fim de tarde abafado dos primeiros dias de Dezembro.
Meu pai começa a falar. Havia conversado com o Ramiro, ligaram pra ele do Grêmio.
A tragédia havia abalado muito todos os jogadores e comissão, precisavam relaxar um pouco antes do jogo complicado.

De repente, meu pai desaba em lágrimas. E entre o pranto e um sorriso diz uma frase que eu nunca vou esquecer, pelo resto da minha vida:

– O meu time tá precisando de mim. Renato quer um show antes da final.

Desabamos todos. Num abraço. Num choro. O choro mais delicioso da minha vida.

Depois daquilo, todo mundo já sabe.

Fomos lá no hotel na véspera da final, tiramos a nossa sonhada foto com o Renato, os jogadores amaram o show, o Grêmio foi campeão.
A surpresa? Após o título, Renato fala do meu pai na coletiva. Explosão de alegria que até hoje ecoa no meu coração.

De 2016 pra cá, 4 anos e meio se passaram.
Essa história de irmos lá se repetiu na véspera da final da Libertadores, da Recopa, de Gauchão, em pré-temporada e mais recentemente em mata-mata de Copa do Brasil – que rendeu uma linda matéria no Globo Esporte, pro estado inteiro – se é que alguém ainda não sabia, saber:

Paulinho Mixaria é o amuleto da sorte do Grêmio multi-campeão de Renato Portaluppi.
Caraca. Escrever isso me arrepiou. Perdoem, choro muito enquanto escrevo. É difícil não contemplar a beleza de uma história que está chegando ao fim sem me render ao pranto.

Quatro anos e meio. E nesse período, vi o maior ídolo da história do nosso clube convocar o meu pai OITO vezes para ajudar o time.

E eu só queria uma foto na saída de um treino.

Ganhei oito idas a concentração, fotos com todos os jogadores que eu queria, dezenas de camisetas autografadas, vi meu pai ser assunto na mídia, no Twitter, nas rodas de conversa, quatro tatuagens que marcarão meu corpo com lembranças dessa época para sempre.

Me lembro como se fosse hoje. Eu só queria uma foto. Ganhei os momentos mais lindos da minha vida.

Obrigado, pai.
Obrigado, Renato Portaluppi.

De 15 de Abril de 2021 pra frente, o futebol me perde um pouquinho da graça. Mas acho que depois desse texto vocês entendem as razões, não é mesmo? Eu me lembro como se fosse hoje…