Havia passado mais de um ano sem fazer a coisa que mais gostava.
Ou, pelo menos, a que melhor fazia.
O homem reencontrou o menino numa manhã abafada no interior de São Paulo.
Compartilharam um sorriso ao terem o reencontro numa sala
com o ar-condicionado no turbo, a 16º Celsius.
Afinal, nenhum dos dois nunca foi muito chegado a passar calor.
Talvez existissem muitos jeitos de esse encontro acontecer.
Geralmente era da maneira mais dolorosa: a perigosa magia da ilusão da nostalgia.
A Máquina do Tempo das Memórias e Lembranças sempre fora a mais usada.
Talvez por ser a mais óbvia, a mais automática.
Talvez por um certo instinto masoquista de gostar desses pequenos e saborosos sofrimentos.
Eles costumavam se reencontrar no passado. Sempre acabavam na discussão, no dilema e, por fim, na briga sobre o que deveria ter sido feito diferente. Mas isso nunca terminava bem.
A Máquina do Tempo das Memórias e Lembranças os permitia assistir, mas não editar o passado.
Eles insistiam em se reencontrar por lá.
Mas não hoje. O homem já entendeu o perigo que é mexer com essas coisas.
O menino talvez não compreenda, mas, ao ver a sombra de um sorriso sereno — assim, sem mostrar os dentes — e a paz no olhar do amigo, consegue saber que o mais velho sabe o que está fazendo.
E o menino ama o homem por isso. Sente um alívio que nunca alcançou, pois toda e qualquer sensação de felicidade plena que teve na vida vinha acompanhada de um medo profundo de saber que era passageiro. Logo alguém diria algo, ele leria uma coisa ou o espelho lhe açoitaria e o traria de volta à “realidade”.
O menino nunca achou, de verdade, que merecia ser feliz.
Achar, ele até achava. Mas, como sempre pautava a sua vida na base da comparação, mesmo os pequenos milagres logo pareciam insuficientes. E o ciclo se repetia: ao chegar ao auge de uma felicidade calma, algo lhe mostraria que não, as coisas não eram bem assim.
Se reencontraram, então, através da escrita, que sempre foi a espada que usaram no caminho.
O menino quis entender por que o homem havia abandonado a espada. Afinal, ela sempre havia sido a arma mais poderosa deles.
O homem assentiu e explicou que foi preciso.
Era preciso se afastar de tudo. De todos. Descobrir novos caminhos.
Mergulhar nas profundezas de si numa viagem jamais feita antes.
Só que sem bagagem. Sem espada. Sem nem roupa.
Nu e completamente despido de defesas e recursos.
Foi preciso ir ao inferno. Destruir tudo o que eles conheciam como “eu”.
Abandonar tudo o que parecia confortável e conhecido.
E se abraçar em coisas que eram rejeitadas pelo menino:
Disciplina. Rigor. Sofrimento. Dor.
— Até a Dor? — perguntou o menino.
— Essa virou a nossa melhor amiga — o homem respondeu, sorrindo.
E explicou que a conheceu, a entendeu, a abraçou e formaram uma amizade linda.
A Dor, apesar daquele rosto feio e assustador, era uma companheira incrível.
– Ela nos ajudou a enfrentar os maiores demônios, aqueles que você tremia só de pensar a respeito — disse o homem, com firmeza.
O menino olhou pensativo para o chão, enquanto o homem prosseguiu contando a saga dos últimos tempos.
Mostrou as cicatrizes das feridas que, no corpo do menino, ainda estavam abertas.
Explanou o que aprendeu com vários mestres no caminho.
Descobriu que Talento de nada valia sem Disciplina.
Que a amiga do menino, a Comparação, era, na verdade, uma assassina. E ele testemunhou, com seus próprios olhos, o dia em que ela matou os filhos da Criatividade.
E que uma das lições mais poderosas foi recente.
Aprendeu que os Elogios, que o menino tanto amava, eram tão falsos e ilusórios quanto as Críticas que ele temia.
— Mas então quem me apresentou a eles mentia? — o menino não compreendeu.
Ao que o homem respondeu:
— A questão nunca foi essa. Ambos são apenas parte das Percepções do Mundo.
Podem tanto ser verdade quanto podem ser mentira. Mas isso simplesmente não importa.
Real ou falso, é sem valor nenhum. Pois, se os Elogios te engrandecem e as Críticas te derrubam, você simplesmente não sabe quem é.
— E hoje você sabe?
— Eu encontrei ela, garoto…
Os olhos do menino brilharam ao ouvir a frase. A voz embargou, e ele engasgou até conseguir perguntar sobre o grande amor da sua vida.
— É… Él… Ela? Você encontrou a Liberdade? Meu Deus! Onde foi isso?
O homem abraçou o menino. Apoiou um dos joelhos no chão, segurou seus ombros com as duas mãos e disse, olhando dentro dos seus olhos, como a jornada terminou.
— Depois de atravessar os desertos e os vales, as profundezas do inferno, enfrentar nossos demônios e descobrir novos aliados, mesmo sem a nossa espada, fui até o final do mais escuro quarto que existia dentro de nós. Lá onde você jurou jamais ir.
— Onde habitam os Monstros do Passado? — o menino tremeu só de perguntar.
— Quando eu entrei, não conseguia enxergar de tanta escuridão.
Senti frio, fome, medo, pânico.
Os Monstros do Passado gargalhavam, riam, me agrediam.
Mas já não havia mais nada a perder.
Quando meus olhos foram se acostumando com a escuridão, fui começando a enxergar e perceber.
Eles nem eram tão grandes.
Eram sombras, não criaturas.
Os gritos eram apenas ecos.
E, sentada no fundo do quarto, estava a Liberdade.
Tirei as algemas das suas mãos, a venda de seus olhos e a mordaça de sua boca.
Ela sorriu e me abraçou. Disse:
“Eu estava aqui te esperando por toda a vida.”
O menino chorava de felicidade. Mas logo o remorso voltou.
— Eu nunca vou me perdoar por ter vivido com tanto medo, sendo que a Liberdade sempre esteve aqui e eu não fui capaz de libertá-la.
O homem, também com lágrimas nos olhos, deu um último abraço no menino antes de partir.
— Mas eu te perdoo. Havia coisas que só o tempo podia nos ensinar…
Pegou a espada e pôs neste texto ponto final.
Paulinho Rahs

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