Foi mês passado. Se não estou enganado foi sim. Caramba, tudo isso! A situação é a seguinte: eu estava tomando meu café na sacada de meu apartamento como religiosamente faço todos sábados pela manhã. Eis que de repente ela passou. Cara, estou te falando: era a mulher da minha vida. Sorridente, tenho certeza que ela chegou a olhar pra cima. Hipnotizado, não pude fazer nada senão observar ela cruzar a rua e sumir ao dobrar a esquina. Assim que ela sumiu atrás da rústica construção de tijolos onde se encontra o mercadinho aqui da frente, minha primeira reação foi a de deixar o café em cima da mesa e descer correndo, pela escada mesmo, os quatro andares que separam a minha residência do nível da rua, até a calçada onde ela majestosamente passou instantes antes. Quando eu cheguei na esquina onde ela desapareceu, já estava pronto para correr atrás da moça, abordá-la, e dizer que estava muito feliz em ter lhe encontrado: a mulher da minha vida. Mas sabe o que aconteceu? Não vi nem sinal da morena, de botas, jeans rasgado, jaqueta de couro e cabelo na altura da cintura. Era a própria visão do céu meu amigo. Acredito que você me entenda, porque o pessoal do escritório não me entendeu. Passei o resto do final de semana na sacada, trocando inclusive, o café por um uísque – sem gelo, diga-se de passagem -, mas nem sinal da percanta.

Na segunda feira, quando cheguei no trabalho, confidenciei a paixão que havia me acometido na famigerada manhã de sábado. Meu confidente foi meu grande amigo de infância, José. Já casado há 10 anos e com dois filhos, José diz ser o completo oposto de mim. Só por que ele se apaixonou uma vez só na vida. Eu acho um pouco maldoso esse tipo de pensamento, mas tudo bem: ele é meu melhor amigo.

– Zé, eu tô apaixonado – disse para meu comparsa.

– Quem agora? A vizinha do 206 ou a prima da Marcinha do mercado? – não lembrava que já havia lhe contado sobre meus ideais sobre essas moças, pensei.

– Não Zé, foi uma morena que passou na frente do meu prédio no sábado.

– Tá, mas tu falou com ela?

– Não.

– Então como que tu tá apaixonado homem?

– Eu tô Zé, ela é a mulher da minha vida – ele precisava entender meu sentimento.

– Nelson, eu vou te falar pela milésima vez: tu não pode te apaixonar por toda mulher que aparece na tua frente!

Desculpem não me apresentar antes: me chamo Nelson, tenho 28 anos e estou solteiro… Há 28 anos. Mas na verdade já tive outras paixões, estou só aguardando a certa. Bem que podia ser aquela morena…

– Zé, mas talvez seja ela que eu estou esperando a vida toda…

– Deixa eu te explicar Nelson, isso que tu tá sentindo por ela chama-se “amor platônico”.

– Como que é?

– Amor Platônico cara.

– Da onde isso?

– É filosofia mano, é baseado num tal de Platão. Isso é quando a gente se apaixona por alguém mas nunca mais vai encontrar de novo. No fundo a verdade é que tu nem está apaixonado…

Naquele momento eu pedi licença para meu amigo José. Eu gosto muito dele, mas dizer um negócio daqueles foi demais para eu aceitar. Desde então eu pedi férias lá no escritório e passo todas as manhãs com uma xícara de café esfriando na sacada do meu apartamento. Eu tenho certeza que vou encontrar ela.
Ora, que raio é esse de Platão? Nas aulas de filosofia se ele apareceu eu não vi, eu passava essas aulas trocando cartas com a Luisa, uma repetente lá do meu tempo colégio.

Eu realmente não sei quem ele é, mas se esse sujeito tivesse visto o que eu vi aqui na esquina naquela manhã, ele também ia se apaixonar. Agora peço licença aos amigos, meu café está esfriando lá na sacada. Quem sabe um dia eu volto e conto pra vocês o que aconteceu. Quem sabe…

 

Paulinho Rahs

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