Você pode ler ao som de This Love

Ela pediu minha jaqueta. Isso só podia ser um sinal né? Eu não enxerguei. Era um dia frio, desses com um solzinho para disfarçar o inverno. A gente na rua, no meio do desfile e ela queria usar a minha jaqueta de couro preta, aquela confirmada que eu nunca passei mais que dois dias sem vestir. Eu não pensei duas vezes antes e lhe entreguei. Mas será mesmo que era um sinal? Por baixo, minha camiseta de manga curta não era nem de perto suficiente para enfrentar o vento gelado daquela tarde. Meus pêlos todos se arrepiaram, mas não foi de frio, lhes garanto. Foi por ela. Vocês não estão me entendendo, acredito: ela pediu minha jaqueta! ELA! Logo ela, por quem eu morria de amores. Isso tinha que ser um sinal, cara. Os guris da turma preferiam a sua amiga, mas bueno, que bom que eu sempre tive gostos peculiares. Pra mim era ela. Era eu na pista, com a juventude correndo nas minhas veias e uma vontade descontrolada de fazer tudo valer a pena.

Seguimos caminhando e ela estava usando a peça de roupa que mais me identificava. Minha jaqueta de couro me apresentava quase mais que meu cabelo arrepiado. Ela era eu. Para ir para a escola, para sair da academia, para ir no bar com os amigos. Se vissem aquela peça negra pendurada em alguma cadeira ou arara podiam saber que eu estava por ali. Só que naquela tarde ao invés da parte de trás do meu moicano, era o dourado de seu cabelo que corria pelos ombros do meu casaco adorado.

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Diziam os guris que aquele era o sinal mais claro de que eu teria chances. Vai saber né. Eu era meio diferente. Não conseguia atacar, assim, que nem homem faz. Eu era um tanto terno, mais pra desconjuntado nessas horas infames. Até hoje eu nunca soube se eu deveria ter tentado beijar ela ali mesmo ou quem sabe uns dias depois quando ela postou uma foto minha no seu Instagram. Talvez num outro dia que ela me chamou para bater uma selfie ou ainda mais num outro em que a gente repetiu a foto quando eu voltei de uma longa viagem. Foram tantos momentos que me travaram, talvez por influência dos meus amigos que sempre estavam por perto. Sei que esses anos todos se passaram e eu não deixei de ter todo esse lance platônico por ela. Encontrei-a na rua uns tempos atrás e continuei sendo o mesmo pateta de sempre. Mas o que é e o que não é um sinal? Talvez eu tenha tentado lhe agarrar numa festa esses tempos, mas era tanto álcool na cabeça que eu já não tenho certeza disso. Do que eu tenho certeza é que se aconteceu, ela me dispensou.

Na minha cabeça, sempre vai ficar esse lance: ela nunca quis nada ou eu que dei as investidas erradas? Meu frescor de dezessete anos de idade e minha mania de ser sempre mais gentil em horas que se precisa um tanto de atitude sempre foram um muro de concreto entre nossos lábios. Quem sabe um dia desses eu volte a encontrar ela, quem sabe eu tenha essa chance. Só que aí as minhas fotos no seu Instagram já ficaram para trás, nossos trabalhos em dupla já são parte do passado, nossas conversas de amigo já talvez nem passem mais pela cabeça dela.

Mas vai que ela pede minha jaqueta… Ah, mas dessa vez eu enxergo! Espero que isso seja mesmo um sinal.

 

Paulinho Rahs

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