“Hoje é o dia eu quase posso tocar o silêncio”

(Tudo que vai – Capital Inicial)
A noite enfim chegou. Véspera de feriado nacional, mesmo dia da semana daquela vez, sol com frio, exatamente igual. Essa é a minha história, porém pode mudar essa frase anterior pelos dados da sua. A propósito: este texto vai ser todo muito pessoal, já lhe aviso. Mas leia, sim, leia. E imagine tudo que eu contar com fatos da sua própria história. Vai dar na mesma, eu garanto. Eu e você, amigo que lê minhas palavras tristes, temos algo em comum: nos acostumamos a esquecer.
Eu me esforço de verdade, só que hoje foi muito difícil ignorar. O mesmo mês, dia, clima, borboletas no estômago, nó na garganta, flerte com o vício, coração em polvorosa. No espelho; mudaram as roupas, os olhos já não tem tanto brilho, agora existe barba na cara, entradas mais profundas no cabelo, me vejo inegavelmente mais velho. Minha vestimenta melhorou, isso é fato. Contudo na minha cabeça as preocupações deixaram de ser a professora babaca, a prova difícil, beber com os novos amigos no fim de semana próximo, planejar uma festa, os horários de futebol, pensar na minha carreira no videogame. Agora penso em pagar contas, me preocupo com o futuro, mal tenho tempo para os velhos amigos, esqueci como é sair todo fim de semana. Muita coisa mudou e ao mesmo tempo tudo é a mesma coisa; minha casa, meu quarto, meus sonhos, minha maldita mania de guardar as datas.
Exatamente hoje, há anos atrás, por essa hora da noite eu estava numa adrenalina maluca: louco para sair de casa, íamos num show juntos e eu sabia bem o que isso significava. Ela chegou deslumbrante por lá, ao natural. Era a nossa noite, na nossa cidade e eu não poderia estar mais feliz. Era o primeiro encontro dos meus lábios com os dela. Era tudo que eu mais queria na vida. Hoje, pra ser sincero, mal sei o que quero no almoço de amanhã.
Acabo de ver uma foto dela na rede social de uma amiga, toda produzida e pronta pra sair para a balada com um cara que eu apresentei.

Essa não é ela.
Eu decidi me trancar no quarto com todas as drogas que encontrei a disposição em casa, pronto para me chapar e escrever a madrugada inteira.

Esse não sou eu.
O que será que nós diríamos se na hora daquele abraço de anos atrás mostrassem uma foto de como estaríamos hoje? Desencontrados. Nenhuma outra palavra define melhor.
Vamos lá, não vou de novo querer tentar entender ou explicar o término. Até hoje os porquês, os quês e os buquês de rosas mortas jazem enterrados no cemitério do nosso jardim. Se quiser entender mais, leia qualquer outro texto meu que encontrar perdido por aí. Ou então, peça pra ela! Fiquei sabendo que essa sua nova versão anda bem sociável, querendo fazer novos amigos, frequentando os lugares que nunca quis frequentar comigo.
Se você a conhece, nem perca seu tempo lhe enviando esse link via Whatsapp. Não chame ela no Facebook para contar da minha dor. Eu já entreguei a ela meu maior segredo: ela sabe que vai estar sendo lembrada toda vez que minhas palavras tocarem no rádio.
Mas agora sabe o que mais dói?

Não é a indiferença que ela sente ao me ver. Não é eu ter encontrado um amor melhor em todos os sentidos que fez toda minha história com ela virar perca de tempo. Não são as fotos dela se divertindo, as substâncias suspeitas que tenho usado com frequência e nem termos nos tornado pessoas completamente diferentes.

O que mais dói não é saber que nunca teria dado certo não importando quantas tentativas.
O que mais dói, meu amigo, é que hoje não é mais um dia especial.

Dói que eu estou aqui lembrando, mas hoje é apenas a data que ela esqueceu.
Paulinho Rahs

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