Foi exatamente essa frase que ela disse. Nem uma palavra a mais e nem a menos. Não tenho porque mentir pra vocês; se estou aqui externando fatos, é sem omitir nem aumentar. Bom, talvez eu aumente um pouco. Mas não é por alguma tendência vil, e sim simplesmente pela minha inclinação melodramática. Não nego isso – pra vocês verem que não estou aqui para dissimular. Ok. Dito isso posso seguir no meu raciocínio. Acordei nessa manhã um tanto tonto, abri as mensagens no meu celular e li isso logo abaixo do nome daquela moça. “Precisava mesmo falar contigo”. Ha… Mas é claro que precisava!

Que fale então. Tudo. De uma maldita vez. Que venha e esclareça as coisas que ficaram pra trás porque, pra ser sincero, ultimamente tenho vivido apenas na minha mente. O resto de mim? Está morto. Estou morto de verdade desde que a mandei para o inferno. Condenado por envenenar meu próprio sangue. E ela por apunhalar meu coração. Preciso de um sopro que me faça voltar a vida. Talvez então se precisa falar comigo, essa necessidade seja por ver meu sofrimento, aqui, definhando aos poucos, afogado no meu próprio rancor. Nossa, nem estou me reconhecendo mais. Que estranhas essas palavras proferidas. Eu nunca fui assim. Se fui eu quem errou primeiro, se fui eu que enviei uma mensagem de cinco letras para ela ontem a noite – contendo nada mais que o seu nome – no auge da bebedeira, ela que tenha a decência realmente falar comigo já que ‘precisa’. Entendo, a questão não é a sua decência. Peço então compaixão. Misericórdia para comigo.

Que essa urgência seja para explicar o que aconteceu. Eu nem mesmo sei o que está acontecendo agora. De uma coisa eu tenho certeza: fui escanteado, jogado pra longe das vidas daqueles que tanto prezei. Melhores amigos, amor proeminente disfarçado de paixão. Fiquei pra trás. Com uma faca fincada no peito. Logo, se ela precisa mesmo falar comigo, deve ser porque entende o apuro que estou passando aqui nesse emaranhado de sentimentos e coisas que não sei nem como resolver. Como fomos chegar a esse ponto? Era pra ter sido diferente, lembro que falávamos silenciosamente sobre a admiração recíproca sentida. E hoje, sente-se algo?

Sei lá, talvez a questão seja que nossa história morreu mas ficou sem caixão, sem lápide, sem cruz. No fundo estou curioso pra saber se ela precisa falar comigo sobre qual pedra escolheremos pra pôr em cima ou qual poder invocaremos pra ressuscitar. De qualquer forma, eu também estava mesmo precisando falar.

 

Paulinho Rahs

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