Sozinho na escuridão do quarto, quieto ouvindo sons que dizem muito sobre quem sou, quem fui e quem acabei me tornando sem querer. Essa é uma daquelas horas em que tudo vem ao mesmo tempo. Perigo à vista! Alguém tem uma pílula para me acalmar? Lembro que estou sozinho e já há coisa demais na minha corrente sanguínea. Introspecção, silêncio, melancolia. É hora de uma avaliação interna, uma limpeza geral e um pouco de honestidade. Estou nu de alma, despido de tudo que faz parte da máscara que o mundo vê.

Aqui sou só eu e eles: os segredos que não podem ser contados. As coisas que foram ficando pra trás e eu fui patrolando, empurrando com a barriga ou simplesmente ignorando para não pirar e manter uma vida “normal” como é esperado em um convívio social. São tantas mentiras já contadas que confesso: às vezes fica difícil até pra mim lembrar qual é a versão real. Dizem que tenho o perfil de um bom mentiroso. Fato ou não, a verdade é que quando eu uso o recurso da mentira para salvar, melhorar, consertar ou criar alguma situação eu passo a acreditar nela. Cá entre nós: para vender um produto, você precisa convencer o comprador de que ele necessita daquilo. O mesmo vale para a vida real. Li isso uma vez num livro qualquer sobre empreendedorismo e achei genial. Essa é uma daquelas realidades tão óbvias, mas tão óbvias, que a maioria acaba não se dando conta. Li também numa outra oportunidade que a verdade é uma mentira dita muitas vezes. Bom, quase isso, talvez com as palavras colocadas de forma diferente. Enfim: a ordem os fatores não altera o produto, não é mesmo?

Sendo assim, eu acredito tanto nas versões oficiais que não é anormal eu perder por aí as originais. E já são tantas coisas acumuladas que vou simplesmente deletando o que não precisa ser usado. Não tenho lá uma memória muito boa. Deve ser por isso que não sou rancoroso: eu geralmente esqueço quem errou. Se não soma na minha mente, eu faço sumir. Se não melhora a versão da história, é melhor enterrar mesmo. Um dia tudo vira história e o que fica registrado é o que vai contar. O que jamais contamos a ninguém é o que irá sumir. E não me venha com essa de “amigos para quem se conta tudo”. Todos temos esqueletos no armário. Se livre deles e não conte a ninguém; não existe segredo entre duas pessoas. Meu amigo, não me leve a mal, te peço com carinho. Se essas palavras chegaram a ti é por que elas já se tornaram parte da ilusão. Você ficaria espantado se soubesse o quanto da vida é manipulação. É uma fatia maior que nossa crença na verdade das pessoas poderia sequer suportar. Agora, vamos pensar com frieza: não é melhor assim? Tem coisas que podem causar danos tão grandes que é melhor não ficar sabendo. Tem muita gente ao nosso redor que está buscando apenas interesse pessoal; somos peças do quebra-cabeça de alguém. Não interessa se você é rico ou pobre, influente ou desconhecido. É uma tendência pensar que apenas gente “importante” sofre com aproximação por interesse. Meu irmão, isso é mais comum que você pensa. Interesse é mais que dinheiro, poder, status ou essas coisas materiais. Existe interesse por sentimentos, interesse por descoberta, interesse por ser. Talvez as pessoas estejam próximas pra te sugar energia, pra te sugar vibração. É inconsciente na maioria das vezes, elas sequer sabem. Mas não precisa paranóia, você também faz isso. Quer um exemplo do que estou falando? Duas pessoas que se amam e sentem que se PRECISAM. É o interesse de ficar bem apenas ao lado dessa pessoa, é sentir-se vazio na ausência dela. Você ficaria apavorado se soubesse que muita gente não está junto para ver o outro bem e sim para ver a si próprio bem através do outro? Mas isso é tão normal, meu amigo…

Em horas como essa eu gostaria de ter escrito um diário durante os últimos anos. Um diário com relatos sinceros para no fim das contar passar a limpo e entender quem sou de verdade. Porém, sabemos, diários uma hora ou outra vem a tona. É essa a função deles. Por isso já desisti da ideia. Fica assim, eu perdido nas noites entre as substâncias variadas que estão correndo no meu organismo e os pensamentos ansiosos que estão saindo da mente. Fica tudo apenas armazenado nas minhas lembranças, entre verdades e mentiras, confundindo meu poder de julgamento lá na frente.

No fim das contas, a importância de “se saber de onde viemos para entender para onde estamos indo” fica soterrada pela existência de “sempre é hora de recomeçar”. Até porque repensar todas as atitudes da vida é comprar uma passagem para enlouquecer; de arrependimento, de tristeza, de saudade.

Deixa que o tempo se encarrega de apagar o que pode nos matar. É por isso que eles existem: os segredos que não podem ser contados.

 

Paulinho Rahs

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