Basta uma árvore
Para fazer mil fósforos
Basta um fósforo
Para queimar mil árvores

(A Thousand Trees – Stereophonics)

O Dudu viu a Clarinha beijando a Márcia numa festa de Natal. Bom, ao menos ele achava que tinha visto. Estava meio escuro atrás do galpão da família do Felipe e ele tinha ido até lá para fazer xixi atrás de uma árvore enquanto não desocupavam o banheiro. Olhou para as meninas no meio do bosque. Elas estavam sob a sombra da casinha na árvore. Ele bateu o olho de relance para não ser notado e, então, saiu correndo.

– Lipe, tu não vai acreditar!!!

– Tá brincando né, Dudu? Logo a estranha da Márcia!? Cara, o Marcão vai pirar. – O tal Marcão era o mais velho da turma, tinha 16, e era irmão de um outro amigo dos dois. As meninas em questão, supostamente trocando um beijo atrás do galpão, tinham 13 e 14, respectivamente.

– Meu, a gente precisa contar pra ele! – O pequeno Dudu era um legítimo “boca de sacola”.

– Não, velho. Ele vai entregar elas.

– Mas a mina tá traindo ele meu. Com outra… urgh, que coisa nojenta… com outra mina! Sempre soube que essa Márcia tinha uma cara de sapata.

– Ah, isso é. Tu lembra no quarto ano quando ela deu um selinho na mãe dela? Na frente da sala toda! Que porra foi aquela?

Os meninos entraram de volta no galpão onde a festa da família do Felipe ia a mil por hora, com os pais de toda a meninada do sétimo ano confraternizando. Até a diretora estava lá, num canto fofocando algo com a professora de química. Solange, ou Tia Sol, era a professora encarregada da turma dos meninos, um doce de pessoa. Quase quarenta anos, mas aparentando uns vinte.

– Tia Sol, a gente precisa conversar – disse o Dudu, ligeiramente ansioso.

– Pode falar Dudu. Oi Felipe! Estava mesmo dizendo pro seu pai sobre o projeto de vocês de ciências desse ano.

– Obrigado prof. Pai, com licença. Podemos falar rapidinho sobre o novo projeto? – Felipe e Dudu levaram a professora para o canto do salão, bem em frente a uma salinha que dava para a cozinha anexa.

– Não sei o que fazer, vi algo muito nojento agora. Se o pai do Lipe fica sabendo… O meu então… Cara imagina o pastor Marcos! Ele é pai da Clarinha, prof!! – Dudu foi ficando nervoso.

– Eu sei que o senhor Marcos é pai del… Mas o que você viu menino?

– PROF! EU VI A CLARINHA E A MARCIA SE BEIJANDO ALI NA RUA!!! – Dudu não se conteve e falou mais alto que deveria. Talvez influência de ter crescido ver a mãe falando com as vizinhas sussurrando e “aleatoriamente” – aham, na cabeça dele – subindo a voz em momentos chave da conversa.

– Meninos… – Sol deu uma risada só com os lábios e começou a falar com todo o carinho de quem tentava construir um mundo mais tolerante e liberal através de seus alunos.

– Quero conversar sobre isso com vocês com calma. Mas por enquanto é o seguinte: não tem nada de feio nisso. Vocês estão numa idade onde estão começando a se descobrir, sei que vocês também beijam meninas de vez em quando…

Os dois se entreolharam e ficaram vermelhos.

– E gostar delas. E elas também, os outros colegas meninos de vocês também… Acontece que gostar de uma pessoa igual você é normal…

– MAS ELAS TAVAM SE BEIJANDO! – Dudu estava alterado.

– Quem estava beijando quem? – chegou o irmão caçula do Marcão.

– A Clarinha e a Márcia! – não deu tempo da professora intervir; Dudu era uma máquina de fofoca, igualzinho a sua mãe.

O irmão caçula de Marcão saiu correndo para contar pra Júlia, a menina que ele gostava. Júlia engoliu seco ao saber, pois ela era apaixonada secretamente por Márcia, a estranha. Júlia disfarçou, disse que ia ao banheiro, ligou pro seu pai e foi embora chorando.

– Muito nojento duas meninas se beijarem – ainda ouviu alguém dizendo em um grupinho. Parece que a notícia havia corrido rápido. Não demorou e Marcão, que estava planejando pedir Clarinha em namoro, ficou sabendo. Enfurecido contou para seu pai, para o pai de Felipe que era anfitrião e para o pastor Marcos que era pai de Clarinha – todos ao mesmo tempo.

Para aqueles senhores conservadores que falavam em Deus, nos valores da família e pagavam seus dízimos em dia, aquilo era um fato horrendo. Aquelas meninas estavam se perdendo. Logo a música parou, pastor Marcos pegou Clarinha pelo braço na frente de todo mundo e foi embora espraguejando algum versículo sobre horrores mundanos.

No fim todo mundo foi embora comentando o fato.

Júlia chorando em casa porque gostava de Márcia, mas agora que ela havia beijado Clarinha, já era. As férias iam ser um lixo, e ela tratou de colocar fogo nas cartas secretas que ela escrevia para a amada e planejava um dia entregar.

Marcão jogou fora o anel que havia comprado para pedir Clarinha em namoro, junto com ele um buquê de rosas que entregaria no dia seguinte a festa e jurou nunca mais falar com ela.

Clarinha e Márcia foram julgadas por toda a turma e seus pais sem sequer entenderem ou terem tempo de explicar qualquer coisa. Ambas foram parar em internatos no ano seguinte para aprenderem a não desonrarem o “bom nome” das famílias.

O tal “beijo” que Dudu viu no escuro olhando de trás de uma árvore para o meio do bosque e sob a sombra da casinha da árvore era um abraço de duas amigas, seguido de um beijo no rosto e muita felicidade pelas confidencias trocadas após muita demora em construir aquela amizade.

Ambas queriam desabafar para alguém confiável e, finalmente, haviam encontrado uma na outra tal confiança. Clarinha feliz porque tinha descoberto que Marcão ia pedir ela em namoro. Márcia feliz porque Júlia estava se mudando para a cidade de sua mãe, que havia se assumido homossexual e casou com uma namorada, e ela planejava se mudar também para finalmente poder namorar a menina que gostava, em casa, sem medo de ser feliz.

 

Bastou apenas uma árvore verdadeira, um momento de amor e fraternidade

Para serem feitos mil fósforos de fofoca, maledicência e preconceito

Bastou apenas uma fósforo desses ser riscado

Para queimar mil árvores: todas as  histórias de felicidade que estavam por vir.

 

Paulinho Rahs

Basta uma árvore
Para fazer mil fósforos
Basta um fósforo
Para queimar mil árvores

(A Thousand Trees – Stereophonics)

Me siga nas redes: Instagram | Facebook | Snapchat: @PaulinhoRahs

Anúncios