Foi aquele curto instante. A moça de olhos verdes fixos em um muro todo escrito de giz branco e uma dedicatória no final. O giz ainda tinha um branco forte como se aquela mensagem tivesse sido escrita há dois dias, não há dois anos. “Como ainda não se apagou? Como ninguém pintou nem pichou esse muro?”. A menina se aproximou e notou uma diferença na mensagem. Abriu a boca, leu de novo. “Não pode ser possível.” Ela seguiu pelo saguão, um tanto desconcertada e com uma sensação forte. Um misto de empolgação e frio na barriga.

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Era a teoria de Rafael: Evite o contato olho no olho. As pessoas têm o seu maior poder na retina e mesmo inconscientemente tomam a mente e o coração das outras e levam tudo. Meu irmão, levam tudo de você.

Camila penetrou nos olhos de Rafael naquele verão já no avião. Ele foi absolutamente dominado. Queria que tudo acontecesse novamente, mas agora seria o contrário. Você, como pessoa influenciada desde cedo pelos livros que leu e pelas novelas que assistiu compreende que temos essa tendência humana de agir de forma teatral aos fatos de nossa vida. Principalmente quando o que está em questão é o coração. E quando que não está? Você pode optar por fazer um papel de quem é totalmente alheio e contra essa bobagem, de quem quer só curtir a vida ou de quem está sempre apaixonado. No fim das contas, todos estão atuando à procura daquela coisa cega que começa com ‘a’ e termina com ‘mor’. E se não for amor meu amigo, é paixão. Aposto com você que está à procura de algum dos dois. E se não estiver é porque já esteve.

O Marcelo dizia pro Rafa que as coisas não eram bem assim. Ele por exemplo, não esteve e nunca estaria. Ponto, simples assim. Mas o Rafael sempre tinha uma resposta de bate-pronto. Imaginava sempre como seus ídolos agiriam se estivessem vivendo o que ele vivia. Absorveu as letras do Cazuza e assistiu a um milhão de entrevistas do Renato Russo. Ainda que não usasse drogas – sabia bem dos defeitos dos ídolos – queria mesmo era sua ideologia e dizia pro amigo:

-“Porra velho, falta é poesia na tua vida”

-“Rafa não viaja”

-“Falta sim. Encantamento, paixão, apego. Esse tipo de coisa”

-“E o que eu ganho me apegando as pessoas?”

-“A sensação de estar vivo.”

-“Mas e quando as pessoas falham com a gente, o que sobra?”

-“A sensação de estar vivo.”

A história de Rafael Alcântara, 21 anos, carioca e estudante de psicologia era como a de muitos jovens universitários espalhados pelo Rio e por todo o país. Tinha um perfil de quem curtia sair com seu seleto grupo de amigos, mas muitas vezes era introspectivo e trocava facilmente um fim de semana de farra por dois ou três livros. Seu autor preferido era Henning Mankell, considerado por críticos como o ‘Rei do Policial’ e escritor de best-sellers de muito sucesso na Europa, principalmente em países como a Dinamarca e a Noruega. Gostava de quando sua mente ficava absorta no que contava um livro. Vez que outra ficava na internet, mas não parava muito. Achava cansativo já ficar no Facebook conversando com meio mundo. Fizera muito isso. Rafa já foi mais popular, mas apesar de toda popularidade tinha um grande vazio que ainda não havia conseguido superar. Agora só restara mesmo um grupo de amigos que ele considerava demais por serem bastante inteligentes, fãs de literatura e Bob Dylan. Era mais ou menos assim: se reuniam, debatiam sobre livros e filosofia: Jung, Freud, Marx. Falavam dos anos 70 da música: Floyd, Led, Beatles, Stones. E divergiam em várias questões. Porém Rafa não era só isso. Ele se adaptava muito bem a vários gostos e a várias tribos, mas o que ele nunca esqueceu foi de dois anos atrás.

Era Janeiro de 2011. Um verão onde foi com seus amigos que fizera no curso de fotografia a uma viagem para Fernando de Noronha. Marcelo foi junto, sempre foi seu melhor amigo. Conheceram-se na segunda série do fundamental e desde então nunca mais se separaram. Chegaram a ficar com duas irmãs quando estavam no ensino médio. Rafael só não levou adiante porque a moça não quis. Nessa viagem, ao entrar no avião no aeroporto do Galeão, a primeira pessoa que Rafa viu foi uma moça de olhos verdes e cabelos negros. A pele bronzeada de um verão que estava iniciando. Os olhares se cruzaram e ela sorriu. Ele também. Sua poltrona era na 20ª fileira ao lado do corredor enquanto a moça ficou na 8ª encostada na janela. Assim que a aeronave pousou em Pernambuco ele se apressou em pegar sua bagagem de mão e se aproximar da fila número oito. Chegou lá e viu aqueles olhos verdes novamente, a menina de sorriso doce ainda esperava para se levantar.

-“Prazer, eu sou Rafael”

-“Oi, meu nome é Camila”

Nada mais precisava ser dito. Ele ajudou a moça com a bagagem e em poucos minutos de conversa descobriram que iam para o mesmo hotel. Camila não teve dúvida: aquele carioca era atraente não só pela sua beleza, tinha algo mais. Rafael não teve dúvida: estava apaixonado. Uma mania infame de se entregar, Rafa era sempre assim. Estava prestes a mudar. Não deu outra: naquela viagem ambos não se desgrudaram e se amaram como nunca. Dois jovens desprendidos dos pais e de qualquer compromisso. Foi uma semana em que nem o grupo da faculdade de farmácia da Camila e nem os amigos do Rafa tiveram eles integralmente próximos. Enquanto os grupos iam pra festas, ambos ficavam na praia juntos e se entregavam um ao outro. Eles eram muito parecidos e ela transmitiu um gosto que ele nunca mais perdeu: ser fã de Legião Urbana. De ‘Dois’ à ‘A Tempestade’ ela ensinava pra ele toda a poesia vinda da voz daquele que se tornaria seu ídolo. O álbum que ele mais gostava era “O Descobrimento do Brasil”. Tinha ‘Giz’, que Camila contou que era a música preferida do autor. No último dia antes de Camila voltar pra São Paulo, Rafa pegou um giz e escreveu num muro na frente do hotel um trecho de música:

“Camila: É só você que tem a cura pro meu vício. Com carinho, Rafa! Janeiro de 2011.”

Dias depois Rafael tentava ligar pra Camila, mas não era atendido. Por mensagem ela pediu que ele não ligasse por um tempo, estava prestes a iniciar um namoro. Um soco no coração do nosso jovem herói. Resolveu que não se entregaria pra mais ninguém. Foi quando começou todo aquele momento de introspecção e pelo ano que se seguiu para Rafa nenhuma menina tinha o mesmo encantamento da morena de olhos verdes. Também pudera, Camila era linda demais. Ele via tudo aquilo como um imenso ciclo que um dia se fecharia, sentimentalismo deliberado. E a trilha sonora pra isso tudo vocês sabem né?

Chamou Marcelo e resolveu que eles iriam pra Fernando de Noronha em Janeiro do ano seguinte.       -“O que tu quer lá Rafa?”

-“Vamo Marcelo, vai ser bacana.”

-“Esquece aquela história, tu não vai mais encontrar ela lá. A mina é de São Paulo, tu anda falando com ela?”

-“Não. Apaguei o número do telefone, nem Facebook adicionei.”

-“Então cara!”

-“Intuição. Algo me diz que ela vai estar lá. Vamo, tu não curte ir lá?”

-“Curto. Mas… Intuição? Tu não tá num livro cara, a vida não é poesia. Um futuro psicólogo que se baseia no sobrenatural. Que beleza!”

-“Marcelo, deixa de reclamar e bora pra lá!”

Janeiro chegou e eles foram. O mesmo trajeto, mas nem sinal da moça de olhos verdes. Teria a intuição Rafa o enganado? Chegou ao hotel e perguntou se havia por lá alguém em um quarto com nome de Camila Ferreira Teles. Nada nos registros. Foi até o muro que estava um tanto desgastado e sem nenhum sinal do recado que tinha escrito há dois anos. Reescreveu:

“Camila: És parte ainda do que me faz forte. Pra ser honesto só um pouquinho infeliz. Com saudades, Rafa! Janeiro de 2013” Fez reserva pra semana inteira. Algo dizia que ela ia aparecer.

 

Paulinho Rahs

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