Sorte a minha que o rádio está ligado. Nele, amigo de tantas noites, toca uma canção pela qual tenho grande apreço.

“Viver assim é um absurdo, como outro qualquer Como tentar o suicídio ou amar uma mulher É um absurdo….”

Hoje minha vida é essa: o bar, o rádio, as fotos, as noites. Eu sei que tudo poderia ter sido diferente, mas eu fiz tudo igual.

Encontro teus olhos no meu copo de uísque e sigo morando naquela casa, sozinho, inventando realidades paralelas onde você seguiu sendo minha. Teoria do caos, efeito borboleta. Chame do que quiser. Eu odiava aquela maldita professora de física que me falava sobre leis que eu não estava nem um pouco interessado. “Toda ação gera uma reação de mesma intensidade” e blá, blá, blá… Nada me importava nessa lengalenga enquanto digitava no meu celular com veemência, até que ela me expulsou da classe por conduta inadequada. Eu poderia muito bem ter ido até a diretoria, afinal, foi pra lá que ela me mandou. Mas não, resolvi dar uma volta pelos corredores da velha escola. Eu poderia ter descido a escada, mas eu resolvi subir. Ao invés de olhar por onde eu andava, esbarrei em você que estava com aquele óculos que lhe caia tão bem, de blusa branca e com um jeito adorável de dizer-me: “Oi… Desculpa”

Não havia necessidade de ser gentil e te levar até a biblioteca. Tampouco de procurar a sua amiga e pedir seu número. A vida corria muito bem para um estudante rebelde do ensino médio. Meus pais nem haviam brigado ainda, minha presença morando com eles levava a alegria que faltava aos dois. Eu nunca tinha colocado uma gota sequer de álcool na boca até seu pai me convidar para acompanha-lo naquele jantar.

É surreal, mas todos os eventos relevantes da minha vida foram decididos em ações tão banais… Ou você acha que naquela noite a gente teria bebido a segunda garrafa de vinho se eu não houvesse sido promovido? Você não teria esquecido de tomar a pílula e nem eu teria sido demitido nove meses depois. Foi justo, eu entendo. Faltar no emprego durante uma semana não é aceitável. Eu só peço que entenda: Meus amigos estavam se reunindo para uma noite de futebol na mesma hora em que eu preparava o quarto do meu primeiro filho.

A vida corre por estradas escuras e eu sei que é assim pra todo mundo. Um prego fura o pneu de um ônibus que para o trânsito e atrasa a vida dos executivos que vinham no carro de trás correndo para fechar o negócio que livraria a empresa da falência. Eventos dos quais nenhum de nós tem controle. Estamos em um perfeito caos e você trouxe apenas isso a minha vida: um completo e perfeito caos. Eu fui expulso da sala. E se não houvesse sido? Eu desci a escada. E se tivesse subido? Eu me apaixonei. E se não houvesse te amado? Talvez numa outra dimensão eu não tenha esbarrado em você, meus pais não tenham se separado e eu não tenha me tornado alcoólatra. Talvez nessa dimensão eu também não tenha conhecido um amor verdadeiro e nem tivesse ganho o maior presente que pode advir de uma relação. Caos e perfeição, isso foi você na minha vida.

Hoje já se vai um ano que você foi embora. E todas as noites eu saio do bar e passo aqui na frente da sua casa. Eu poderia pedir desculpas por tudo que deu errado. Viver assim é um absurdo, eu preciso te dizer. Porém, mais uma noite eu vou embora. Não quero cometer mais nenhuma ação que possa gerar reação pior do que amar você.

 

Paulinho Rahs

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