Sento com um copo de uma bebida bizarramente brega nas mãos. O recipiente é de vidro, deve ter uns três ou quatro cubos de gelo dentro e a bebida é uma mistura pronta e barata de vodca, mel e limão. Meu semblante triste refletido no espelho não é à toa: minha alma sonhadora é infantil e fica choramingando, me pedindo uma explicação para terem acorrentado ela.

Eu não sei o que dizer pra responder; já faz tempo que iniciamos – eu e minha alma – essa história de tentar deixar o mundo mais colorido, fazer as pessoas mais felizes, criar um legado… Como explicar que eu não desanimei, se deixo transparecer tanta melancolia?

 

Como explicar que, por incrível que pareça, tem gente que acha o que a gente faz insuficiente? Minha alma quer voar e eu preferi deixar ela presa. Não sei com que cara vou dizer que é pro bem dela. Tento falar pro meu coração que são muitos os não entendem as nossas intenções. Que nem todo mundo valoriza os esforços independente dos fins.
Os amigos ao meu redor me dizem para deixar pra lá, que deve ser dor de cotovelo e eu não devo me importar com coisas dessa pequenez. Eles nunca faltaram ao meu lado; posso dizer que tenho grandes amigos. Daqueles que as pessoas passam a vida procurando e, veja como sou afortunado, eles enchem sim os dedos das mãos. Contudo isso é insuficiente para me animar; existe muito falatório maldoso rondando a minha vida. E eu que aprendi desde criança a amar as pessoas; ofertar sorrisos a desconhecidos, não ter hora para estender a mão para um companheiro, dividir tudo que tenho, me encontro confuso e impotente. Por essas e outras sinto-me devastado ao ouvir e saber que foram ditas por aí barbáries ao meu respeito. Na maioria das vezes sequer ouvi falar dos nomes daqueles que me insultaram, em outras tenho familiaridade com quem disse isso ou aquilo e me espanto. Como pode ser essa a impressão que passei a eles?

 

Os ataques são pessoais e sem um pingo de compaixão. Os golpes são nos pontos frágeis, nas coisas que priorizo na vida e, para balançar minha alma e meu coração, nos meus sonhos. Acredito por demais nas leis de um universo justo, onde ação e reação, causa e efeito e a lei do retorno são verdades absolutas. Minhas energias são utilizadas na produção do bem. Porém, agora estou melancólico e em dúvida sobre todos os meus conceitos.

Quantas palavras são necessárias para destruir um sonho? Eu tenho escutado mais que posso tolerar. Já fui alvo de deboche, de crítica destrutiva, de julgamento infundado, de estereótipo classista.
Depois que tudo isso acontece, a inocência dentro da gente vai morrendo aos poucos. E eu creditava a ela todo o alicerce dos meus sonhos… Se eu fosse realista quando criança, jamais sonharia com tudo que sonhei. A maldade rola solta nas afiadas línguas livres de rede social. Eu sinto que corria dez vezes mais, com alegria e perseverança, quando nada disso havia me atingido.
É… Pensando melhor, concluo que enquanto as pessoas foram usando de tempo para me puxar o tapete, eu não tive tempo para revide; andei muito ocupado cuidando dos meus próprios assuntos.
Como eu fui bobo em me deixar levar por essa onda!
É hora de voltar aos trilhos e ser, de fato, imparável. Liberto minha alma e meu coração neste exato momento e vou apenas segui-los daqui por diante. Os sonhadores são quem transformam o mundo e em sonhar eles são experts. Eu acredito nisso tudo, meu amigo. Por isso decidi não titubear nunca mais por nem um segundo sequer. Cada um tem da vida o que merece e o choro é livre.

Deixe que falem, pensem, julguem.
Sabe quantas palavras são necessárias para destruir um sonho?
Para o meu, nenhuma é suficiente.

 
Paulinho Rahs

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