“Apesar de tudo” foi a sábia expressão que o velho ensinou para o menino. O pequeno tinha absolutamente todas as condições para construir sua felicidade, mas ninguém lhe contou que felicidade precisa ser construída. Achava, o menino, que felicidade era sinônimo de alegria; algo que chega assim, de repente, e nos invade.

– Por mais parecidos que sejam os significados, cada palavra significa uma coisa diferente. Se não fosse assim, qual seria a necessidade de palavras diferentes? – o velho tentava ir aos poucos, era muita coisa para ser assimilada assim de cara.

Fazia sentido. O menino lembrou que às vezes acordava alegre e às vezes triste. Que às vezes uma piada boba lhe arrancava o sorriso e trazia alegria e em outras uma notícia ruim lhe levava tristeza. As circunstâncias sempre podiam interferir nos seus sentimentos.

– Mas não na sua felicidade, garoto. – O velho era pragmático.

– Mas felicidade não é um sentimento? – o menino ficava confuso com esses conceitos.

– Não. Felicidade é um estado de espírito. Não deixe que as circunstâncias afetem o balanço final de sua felicidade.

Os anos passaram e o menino virou homem. Nunca mais teve notícia do velho, mas esses dias ele estava pensando em sua própria vida.

Colocou tudo na balança: seus incômodos, suas certezas, suas alegrias e tristezas.

Concluiu que apesar de tudo era feliz.

 

Paulinho Rahs

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