Pediu mais um café. – Deve ser o milésimo do ano – ele pensou. E então brindou, na solidão do armazém, os mil cafés que havia bebido desde que o ano virou e em vez de brindar com champanhe, trancafiou-se no seu quarto com uma xícara da negra bebida e um zilhão de folhas espalhadas pelo chão. Rascunhos do romance de sua vida, rascunhos do que ele tentava colocar em um livro ao passo que mal podia colocar na sua vida real.

Poeta sem palavras, Fernando brindava a chegada do inverno bebendo Café com Leite. Ontem havia sido Expresso, anteontem Capuccino. Semana passada um Café Maluco Com Uísque pra disfarçar a necessidade de tomar um porre. Pediu quatro daqueles e voltou pra casa cambaleando.

14 de Junho, olhou no seu calendário. – Amanhã faz dois anos… – Fernando fixava o pensamento nos cabelos loiros de Demetria e tentava não esquecer de nenhum traço de sua beleza. Do corpo que tantas vezes lhe serviu de abrigo e do sorriso que conseguiu arrancar daqueles olhos azuis na primeira vez.

– Gosto do teu cheiro -, disse sem jeito, sem saber o que falar. Ele sempre foi o rei das palavras, dos discursos com efeito, das palestras motivacionais. Demetria o deixou sem palavras como nunca e a partir dali como sempre. Fernando nunca admitiu ser apaixonado por ela – essa foi sua primeira canalhice -, mas também nunca negou isso. Fernando acabou fazendo o que eles sempre fazem. Não eles, os homens, como você deve estar pensando. Eles, os ‘alma de artista’. Eles, os jornalistas, escritores, músicos, cantores, boêmios, anarquistas, poetas e revoltados. Eles, que por outro lado são canalhas por ofício. Sem querer destroem tudo e os livros de história contam que fizeram o que fizeram por “inspiração para poesia”. Mentira. Fernando sabia disso. Fez o que fez, de jogar o amor fora, por ter um imã por fazer tudo errado. Errava quando achava que estava certo. Errava quando não sabia o que fazer. Errava quando mudava de direção por pensar que estava errado.

E claro, sempre sem querer.

Demetria, seu bem querer, foi cansando de esperar. Fernando hoje rói as unhas preso em suas algemas. Fernando quer mudar de vida, mas não sabe nem por onde começar.

– Eu te ajudo, eu faço tudo por ti! – ela disse sendo mais uma vez mais que sequer deveria ser. Ela é honrada, honesta, apaixonante e encantadora.

Fernando não faz por merecer Demetria. Se ele tiver sorte, vão acabar juntos. Ele mal sabe que a sua poesia só virou poesia depois que a conheceu.

Bebe mais um café enquanto toma coragem.

Acho que é hora de uísque, Fernando. Os olhos azuis dela merecem mais que essa covardia. Merecem um cavalheiro bravo que apareça num cavalo branco.

Merecem alguém com a força que ela tem e sequer sabe.

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