Um desses ‘clichezões’ de primeira categoria é olhar pra alguém de opinião contrária a sua e dizer: “Aceita que dói menos”, assim, com um ar de desprezo de quem ganhou uma discussão. Hoje pela manhã acordei muito mais cedo que o habitual – antes da noite sequer virar dia – e parei em frente ao espelho para mais uma daquelas já tradicionais conversas com minhas múltiplas personalidades ocultas. Enchi a pia com água gelada e mergulhei minha cabeça dentro dela numa tentativa ensandecida de, literalmente, refrescar as ideias.

– Aceita que dói menos – , eu disse, em pensamento, mas sem um pingo de arrogância. Sem nada, também, de autopiedade. Disse isso com um tom de realismo, com regularidade no tom e humildade na essência. Aceitar sem conformismo: admitindo, apenas, que muito já foi feito mas agora é hora de parar. Reconhecer que todos os ciclos se fecham em algum momento e que ficar se agarrando nas paredes é um desespero que te faz parecer um bebê chorão e manhoso, imaturo demais pra saber que a vida não é perfeita. “Para que tá ficando feio…”, outra frase clichê que a última ressaca me trouxe e deixou ressoando nos meus pensamentos renhidos. É chegado o momento de deixar de prender as coisas custando o que custar: Let it go. Tudo tem um momento pra terminar.

Eu não deixo de ser alguém sonhador. Não deixo de ser apaixonado, entusiasta, otimista, subversivo ou sequer magnânimo. Prezo por todas as virtudes que julgo ter. Contudo, prender os outros só faz mal. Agarrar sonhos desmoronando, trancafiar pessoas que estão necessitando ir embora e manipular situações para unicamente o interesse próprio é uma triste e egoísta atitude que só adia o inevitável. A vida é maior que interesse pessoal. Não vou deixar com que eu me corrompa por uma depressão pós-escolha. Esse vício de olhar pra trás passou da hora de terminar. Preciso me desintoxicar de sentimentos e consumos exacerbados. Tudo tem o seu lugar, tudo tem a sua hora e eu cansei de esperar: a minha hora é agora.

Vou assumindo minhas limitações pra não ser surpreendido quando a máscara cair, seguindo a caminhada pois é pra frente que se vai, de cabeça erguida e consciente de quem eu sou. Preparado para as críticas pois, mesmo não sendo o melhor exemplo de saber como aceitá-las, no fundo tenho certeza de que minha intenção é pura: fazer algo positivo para quem souber entender. Que desçam o pau! Prefiro os julgamentos que provêm dos holofotes do que a escuridão da inércia. E sempre que eu errar, vou lembrar que estou indo para onde eu devo ir. Evoluindo como a existência foi feita pra ser, respeitando quem pensa diferente, vivendo com a maior positividade possível e principalmente: aceitando que dói menos.

 

Paulinho Rahs

 

 

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